Ganímedes | 2012
Detalhes / OBRA DE ARTE
Título: Ganímedes
Criador: Alexandre Mury
Data de criação: 2012
Tipo: fotografia
Meio: C-print (impressão cromogênica)
Período da Arte: Contemporâneo
Movimento/Estilo: Arte Conceitual, Arte Performática
Assunto: autorretrato, águia americana, bandeira estadunidense, Zeus, Nova Iorque, contra-plongée, rooftop novaiorquino
Obras Relacionadas: "O rápto de Ganímedes" iconografia (vários artistas)
Artistas Relacionados: David LaChapelle
⚿ Palavras-chave
#mitologia #alegoria #iconografia #releitura #simboloamericano #arteconceitual #arteperformatica #artecontemporanea #artebrasileira
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Procedência: Alexandre Mury Coleção Particular / Acervo Pessoal de Obras de Arte
Direitos: © Alexandre Mury
A obra "Ganímedes" (2012), de Alexandre Mury, estabelece uma ponte entre a mitologia clássica e os signos contemporâneos, articulando um discurso visual repleto de camadas simbólicas e conceituais. A fotografia, um autorretrato do artista, insere-se na tradição da apropriação iconográfica ao reconfigurar a narrativa do Rapto de Ganímedes para um contexto atual, utilizando elementos como a águia americana e a bandeira dos Estados Unidos. Essa ressignificação remete ao poder simbólico da águia ao longo da história, desde o Império Romano até sua adoção como emblema do governo norte-americano.
Formalmente, a obra de Mury se destaca pelo uso da técnica fotográfica em um enquadramento de contra-plongée, que confere monumentalidade à figura retratada. O cenário de um rooftop nova-iorquino intensifica a conexão entre o mito e o espaço urbano contemporâneo, sugerindo um diálogo entre a antiguidade e as dinâmicas sociais e políticas da modernidade. Essa escolha estética encontra ressonância na tradição da fotografia encenada, evocando a teatralidade e a exuberância cromática características do trabalho de David LaChapelle. A composição visual, repleta de contrastes e símbolos, reforça a tensão entre tradição e contemporaneidade.
O mito de Ganímedes, narrado por Homero na "Ilíada" e posteriormente reinterpretado por autores como Ovídio e Platão, atravessa os séculos como um emblema de beleza, desejo e poder. Na versão mitológica, Zeus assume a forma de águia para raptar o jovem Ganímedes e levá-lo ao Olimpo, onde este se torna copeiro dos deuses. Ao empregar a iconografia da águia americana, Mury estabelece um paralelo entre Zeus e os Estados Unidos, sugerindo uma reflexão sobre dominação, identidade nacional e os discursos de poder que permeiam a geopolítica contemporânea. Essa intertextualidade reforça a ideia de que os símbolos culturais são fluidos e sujeitos a ressignificações conforme os contextos históricos e sociais.
A relação entre arte e poder, tão presente na tradição ocidental, encontra-se evidenciada em "Ganímedes" não apenas pela escolha iconográfica, mas também pela apropriação de elementos da cultura visual contemporânea. Essa abordagem remete à carnavalização proposta por Mikhail Bakhtin, um conceito que subverte hierarquias e promove uma desconstrução das normas estabelecidas. Esse procedimento de apropriação e ressignificação não apenas desconstrói a mitologia clássica, mas também a integra a um universo visual híbrido, onde elementos da cultura de massa e da tradição erudita se fundem. Dessa maneira, o artista mobiliza referências do imaginário pop, da propaganda e da fotografia editorial para tensionar os significados da narrativa mítica e suas reverberações políticas.
Além disso, a carnavalização proposta por Bakhtin, ao inverter e ridicularizar os símbolos de poder, encontra eco na escolha dos elementos estéticos de Mury, que se valem do exagero, da teatralidade e do pastiche para desestabilizar leituras convencionais. Esse processo cria um campo de ambiguidade interpretativa, onde o sagrado e o profano, o passado e o presente, o elevado e o vulgar coexistem em um jogo dinâmico de significações. Assim, "Ganímedes" não apenas revisita um tema clássico, mas também o atualiza, convertendo-o em uma plataforma para questionamentos sobre identidade, gênero e as relações entre imagem e autoridade na contemporaneidade.
A representação de Ganímedes na arte ocidental varia conforme os valores morais e estéticos de cada época. No Renascimento, Michelangelo e Rubens retrataram o mito sob um viés sensual, enquanto Rembrandt, em sua versão de 1635, enfatizou a violência do rapto ao representar Ganímedes como uma criança aterrorizada. Na literatura, o mito inspirou Goethe e Carlos Drummond de Andrade, cujos versos reinterpretam a narrativa sob diferentes prismas, ora exaltando sua dimensão estética, ora problematizando suas implicações simbólicas e políticas.
Ao inserir-se nesse corpus iconográfico, "Ganímedes" de Alexandre Mury reafirma a capacidade da arte de transitar entre tempos e espaços, promovendo novas leituras para imagens e narrativas estabelecidas. Sua obra, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, reflete sobre as tensões e contradições do presente, reafirmando a arte como um campo de disputa simbólica e de constante resignificação. Dessa forma, Mury não apenas revisita um mito clássico, mas o reinventa, tornando-o um espelho dos dilemas e inquietações da contemporaneidade.
New York, USA
— 26/09/2012 —
No alto de um Rooftop, no Chelsea.
Pesquisa e Referências
Controvérsias simbólicas
Contexto, transitoriedade, ressignificação
"Antigamente, Leonardo da Vinci sentia-se orgulhoso por ter mestres, e quando, em Milão, encomendaram a escultura de um cavalo, ele saiu atrás de cada obra dos escultores anteriores a ele, para aprender e só então se aventurar a fazer a sua escultura. Na época moderna, ao contrário, ninguém quer ter mestres, todo mundo quer inventar a arte por si mesmo, todo mundo quer ser pai e mãe de si mesmo. Hoje, se você disser para qualquer pessoa que ela aprendeu alguma coisa com alguém, ela te dá um tiro, ela não aprendeu nada com ninguém, ela inventou tudo. Quer dizer: isso é o que essa pessoa pensa. " — Ferreira Gullar
Crédito da Imagem para: Sailko, CC BY-SA 4.0, através da wiki Wikimedia Commons
Nesta cópia romana (século II. dC), de um modelo helenístico tardio, Zeus, personificado na águia, agarra o jovem Ganímedes, que veste um gorro frígio. O olhar do menino e os gestos de suas mãos sugerem a surpresa diante do ataque do pai dos deuses. Ao mesmo tempo, a postura do menino é descontraída e de elegância clássica, de modo que a tensão e a calma se equilibram na obra.
— A escultura está suspensa no teto da rotunda, do palácio projetado para exibir os tesouros de Giovanni Grimani.
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Os fundadores dos Estados Unidos gostavam de comparar sua nova república com a República Romana, na qual imagens da águia (geralmente dourada) eram proeminentes. O Selo oficial do governo dos EUA, possui uma águia com suas garras segurando flechas (representando a força armada) e um ramo de oliveira (representando a paz).
A águia segurando o relâmpago de Júpiter (deus romano, equivalente ao grego Zeus) tornou-se o principal símbolo (aquila) das legiões romanas. A águia, também, era usada em cima de uma bola (orbe), supostamente, emblemática do domínio de Roma sobre o mundo.
Zeus, em forma de águia, Segundo a lenda, sequestra o jovem Ganimedes, carregado-o para o céu, no Olimpo, dando a função, ao belo rapaz da Frígia, de servir o néctar que tornava os deuses imortais.
Em "Metamorfoses", Ovídio, narra muitas lendas, da mitologia grega, que inspiram, que são grotescas, e às vezes subversivas, constituindo um universo que apaga as fronteiras entre o humano e o divino.
As muitas seduções de Zeus são um dos aspectos mais conhecidos dos mitos gregos. Porém, este deus, raramente, encantava as mulheres ou os homens na sua aparência divina - Quando Sémele pediu para vê-lo em toda a sua glória olímpica, acabou destruída.
Benjamin Franklin preferia o "peru" como ave nacional dos Estados Unidos, ao invés da águia. Embora, nunca ter sugerido publicamente, ele justifica sua preferência em uma carta que escrevera para sua filha. - "Ele é um pássaro de mau caráter moral."
O Rapto de Ganimedes, de Michelangelo, é um desenho que logo após a execução, foi copiado por gravadores — imediatamente, torna-se objeto altamente cobiçados entre os colecionadores. Entre 1532 e 1533, Michelangelo ilustra extraordinariamente a cena do rápto do belo pastor imbuida de alta carga homoerótica.
O novo puritanismo promulgado pelo Concílio de Trento (1545), no entanto, desencorajou os artistas de continuar a apresentar essa história picante em seu repertório clássico, muito menos ao estilo de Michelangelo, que implicava uma celebração velada do amor homossexual.
Ganimedes sempre foi apresentado sem barba — para denotar sua juventude. Na literatura, ele serviu como o estereótipo do jovem bonito. Johann Wolfgang von Goethe escreveu um poema chamado Ganimedes que apresenta liricamente o jovem sendo seduzido por Zeus. Em 1817, Schubert, inspirado pelo poema de Goethe, escreveu a música para uma canção fortemente emocional.
Na leitura potente de Rembrandt, o sequestro de Ganimedes, de 1635, é um estupro. Na cena, Ganimedes não é representado por um jovem, mas por uma criança pequena. Ao longo da história da arte, repetidas vezes, esta cena, foi utilizada, na pintura, escultura, afrescos, gravuras, joias, mosaicos, desenhos ou na poesia com uma tonalidade que varia de acordo com os padrões morais de cada autor.
O poeta Carlos Drummond, no poema "Rapto", publicado no livro "Claro Enigma", de 1951 — descreve a passagem mitológica, transportando-a aos dias atuais, observando, que este tipo de sequestro — acontece agora em portas de boates. O poema contém um ranço matizado com as mesmas cores dramáticas de Rembrandt. A imagem faz alusão ao mistério da homossexualidade como um chamado divino que acomete ao jovem incauto.
Platão, em particular, afirmou que o mito de Ganimedes foi uma criação dos cretenses para justificar seus caminhos imorais, dando a entender que, pelo menos em Atenas, nem todos participavam da idealização dessa prática:
“E todos nós acusamos os cretenses de inventar a história sobre Ganimedes. Como acreditavam que derivavam suas leis de Zeus, acrescentaram esta história sobre Zeus para que pudessem seguir seu exemplo de desfrutar também desse prazer. — Leis de Platão 1.636 cd
A primeira menção registrada de Ganimedes é encontrada na Ilíada, de Homero, que remonta ao século VIII, antes de Cristo. Outras fontes notáveis incluem Hesíodo, Píndaro, Eurípides, Apolodoro, Virgílio e Ovídio.
O símbolo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela é uma águia. A ave escolhida, inicialmente, teria sido um condor, por sua imponência e por voar mais alto. Porém, as pessoas teriam interpretado o desenho como sendo uma águia, e a ave teve que ser adotada como símbolo. Um dos momentos mais aguardados dos desfiles da Portela é saber como virá representada a águia. A Portela detém o posto de maior campeã do carnaval do Rio de Janeiro.
À partir da mitologia grega a representação da águia foi usada como símbolo de força, que a mitologia romana toma emprestada representando o domínio de Roma sobre o mundo. A águia foi ressignificada ao longo da história em narrativas diversas, repletas de sedução, mistério e transgressão.
O conceito de “carnavalização” de Mikhail Bakhtin é definido pelo processo de subverter o status quo, onde as normas sociais e morais são pausadas temporariamente, uma forma de libertação e resistência às estruturas sociais existentes. A intertextualidade e paródia são formas de desacralização e reinterpretação da cultura. A carnavalização desafia ordem social para expressar opiniões. O processo de carnavalização contribui para a criação de contraculturas e para a desconstrução de hierarquias sociais.
“ o núcleo dessa cultura, isto é, o carnaval não é de maneira alguma a forma puramente artística do espetáculo teatral e, de forma geral, não entra no domínio da arte. Ele se situa nas fronteiras entre a arte e a vida. Na realidade, é a própria vida apresentada com os elementos característicos da representação”.
— Mikhail Bakhtin
Esta versão de Ganimedes, pertence a uma série de desenhos que Michelangelo, aos 57 anos, presenteou a um jovem nobre romano, Tommaso de' Cavalieri, de 17 anos. O desenho original, provavelmente, está perdido. Existem, cópias em gravura e inúmeras outras derivações feitas por outros artistas, em diversas tecnicas, materias e suportes.
O Rapto de Ganimedes é uma pintura a óleo, de 1635, feita por Rembrandt. Está na coleção da Pinacoteca dos Mestres Antigos, de Dresden.
A maneira, muito diferente, pela qual ele é retratado, em diferentes pontos da história, é reveladora das transformações da sociedade. Ao retratar Ganimedes, como uma criança ou bebê, representa o arrebatamento por uma presença divina.
Acredita-se que esta pintura seja uma interpretação alegórica, diferente de Ganimedes focado na beleza juvenil. Portanto, é improvável que esta imagem tenha a intenção de retratar o mito em conexão com a homossexualidade ou a pederastia.
Na Idade Média, algumas representações se concentravam no conteúdo homossexual do mito para retratar toda a sexualidade masculina como imoral. Isso fazia parte de uma transformação contínua dos mitos clássicos em parábolas morais cristãs.
O Anjo do Getsêmani, de Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho ( Brasil, 1730-1814), sitiuada no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos — Congonhas do Campo, MG.
Os traços de estilos arcaicos na estética de Aleijadinho teria a influência de gravuras florentinas. Havia em Minas a difusão de gravuras alemãs e francesas, estatuária e azulejos portugueses. A prática da reproduções de exemplares da arte européia foi um processo corriqueiro entre os artistas brasileiros.
Para além da ideia de flutuação das inúmeras esculturas do artista americano, Alexander Calder, estão as cores primárias como a exemplo desta obra — Little Red and Blue, de 1976, uma inspiração, ou influência. Não por acaso, em vermelho e azul, remetem ao cabível, por mais que seja improvável. Nos campos da plástica e da estética, o conceito atravessa o tempo, os resultados visuais de cada experiência artistica encantam e reencantam. Uma ideia e muitas possibilidades de realizar a mesma-coisa-diferente.
Crédito da Imagem para: site da Bonhams
RAPTO
Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é forma pura e que é suspiro
de terrenas delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o vôo mais cortante;
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.
— Carlos Drummond de Andrade
Construção da cena
Assemblage e bricolagem
http://www.gazelland.com
https://www.kaltblut-magazine.com/alexandre-mury/
"GAZELLE - THE LOVE ISSUE"
A documentary filmby Cesar TerranovaData de lançamento: 14 de novembro de 2014 (mundial)
Duration: 1 hour 33 minutes
Outras versões famosas
OUÇA
Composição de Schubert, inspirado pelo poema Ganímedes de Goethe.