Francis Bacon | 2011

Detalhes / OBRA DE ARTE


Título: Francis Bacon

Criador: Alexandre Mury

Data de criação: 2011

Tipo: fotografia (Tríptico)

Meio: C-print (impressão cromogênica).



Período da Arte: Contemporâneo

Movimento/Estilo: Arte Conceitual, Arte Performática

Assunto: autorretrato, fotografia, primeiro plano, bacon, carne suína, tinta

Obras Relacionadas: "Francis Bacon, Três estudos para autorretrato, 1972

Artistas Relacionados:  Francis Bacon



  Palavras-chave

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Procedência: Alexandre Mury Coleção Particular / Acervo Pessoal  de Obras de Arte
Direitos: © Alexandre Mury
Um tríptico fotográfico composto por três retratos performáticos de Alexandre Mury. Em cada imagem, o artista cobre o rosto com tiras de bacon cru, criando uma textura irregular e visceral que mistura a carne animal com a pele humana. Na fotografia central, Mury adiciona camadas de tinta em tons predominantes de verde, com detalhes em vermelho, branco e azul, evocando a paleta característica das pinturas de Francis Bacon. Os fundos de cada painel variam entre tons escuros e vibrantes, criando contrastes que intensificam a atmosfera grotesca e teatral da obra. O tríptico provoca sensações de desconforto e náusea ao explorar a materialidade da carne e o limite entre o humano e o animal, ressoando com os temas de deformação e identidade presentes no trabalho do pintor britânico Francis Bacon.
Título da obra: Francis BaconCriador: Alexandre MuryData de criação: 2011Tríptico / Fotografia / Autorretrato performático© Alexandre Mury

Na releitura de Alexandre Mury, a obra Francis Bacon transforma-se em um tríptico fotográfico que dialoga com a intensidade estética e emocional do pintor britânico, mas também subverte e expande suas referências por meio de uma exploração grotesca e performática do corpo e da carne. Mury, ao cobrir o rosto com tiras de bacon, literaliza a fusão entre carne e identidade, um tema central na obra de Bacon, e cria uma justaposição simbólica e material entre o humano e o animal.


O uso da carne de porco – um material que carrega conotações de consumo, sacrifício e decadência – sobre a pele humana produz uma sensação de desconforto visual e tátil. A oleosidade da carne salgada, em contato direto com o rosto do artista, remete ao trabalho de deformação de Francis Bacon, no qual os corpos humanos frequentemente se tornam amalgamas de carne viva e superfícies distorcidas. Aqui, a carne da pele humana interage com a carne do porco, borrando as distinções entre sujeito e objeto, identidade e materialidade, vida e morte.


O painel central do tríptico apresenta uma ampliação estética dessa tensão ao incorporar tintas verdes, vermelhas, azuis e brancas em uma composição caótica que alude à paleta vibrante de Bacon. Essa adição de cores reforça o caráter pictórico do trabalho de Mury e sugere um diálogo direto com a intensidade plástica das pinturas do artista britânico. As tintas, misturadas com a carne, transformam o corpo performático em um espaço híbrido de pintura e escultura, onde o grotesco encontra o sublime.


No tríptico de Mury, a repetição dos elementos estruturais – o rosto, o bacon, o formato tripartido – estabelece uma base de reconhecimento e constância. No entanto, cada painel introduz variações significativas na materialidade, na cor e na intensidade, criando um jogo de diferenças dentro de uma estrutura aparentemente estável. Essa dinâmica reflete uma inquietação profunda: a tentativa de capturar o movimento, não no sentido literal ou cinematográfico, mas como um movimento interno, uma vibração na própria matéria da imagem, como Bacon fazia em suas figuras distorcidas e pulsantes.


A carne é, ao mesmo tempo, matéria crua e símbolo de transitoriedade; o rosto é máscara e identidade. A camada interpretativa é ampliada sugerindo uma transformação em curso – não apenas no corpo performático, mas também na própria imagem enquanto objeto. Essa ambivalência dialoga diretamente com a prática de Francis Bacon, que frequentemente explorava a ideia de variação dentro de um mesmo tema – os trípticos de Bacon, afinal, não são narrativos ou lineares, mas sim variações intensas de uma mesma figuração. 


Além disso, o trocadilho implícito no título – onde "Bacon" se refere tanto ao pintor quanto ao material utilizado – transcende o humor óbvio para revelar uma camada de ironia e crítica. Mury questiona não apenas os limites da representação na arte, mas também a própria noção de identidade artística. Ao literalizar o nome do pintor em sua materialidade, ele transforma o título em um comentário sobre a fisicalidade da arte e a relação simbólica entre o artista, a obra e o espectador.


Por fim, o tríptico de Mury não é apenas uma homenagem ao legado de Francis Bacon, mas também uma expansão conceitual que confronta o público com a materialidade da carne, a fragilidade da identidade humana e a potência do grotesco como ferramenta de reflexão estética. A obra de Mury não apenas revisita Bacon; ela transforma seu universo em uma experiência contemporânea de repulsa e atração, questionando os limites da arte e da percepção humana.

Adoro os vermelhos, os azuis, os amarelos, a gordura da carne. Somos carne, não é mesmo? Quando vou ao açougue, acho sempre surpreendente não estar ali, no lugar dos nacos de carne. E depois há um verso de Ésquilo que me obceca: “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim".

—  Francis Bacon


Francis Bacon, Três estudos para autorretrato, 1972
Francis Bacon, Três estudos para autorretrato, 1973
Francis Bacon, Três estudos para autorretrato, 1974

Eu detesto meu próprio rosto, fiz autorretratos porque não tinha ninguém mais para fazer.

—  Francis Bacon

Fotografia do vestido de carne, obra de Jana Sterbak
© Jana Sterbak  | Centro Pompidou

Jana SterbakVanitas: vestido de carne para albinos anoréxicos198723kg Carne de boi crua costurada e manequimDimensões variáveisCentro Pompidou
Obra de arte, intalação com vestido de carne crua em decomposição.
© Jana SterbakCrédit photographique : © Philippe Migeat - Centre Pompidou, MNAM-CCI /Dist. RMN-GP

Jana SterbakVanitas: vestido de carne para albinos anoréxicos1987Instalação: Vestido exposto em manequim de costura e acompanhado de fotografia colorida exposta na parede próxima à escultura.Centro Pompidou
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O famoso vestido de carne de Jana Sterbak aborda o tema da Vaidade.  A carne começa a secar gradualmente, adquirindo tons marrons diante dos olhos dos visitantes. 


O processo de decomposição da carne é um componente essencial do trabalho, que é inteiramente refeito a cada nova apresentação. 


De certa forma, o avesso do corpo, exposto, rapidamente seca, murcha e envelhece, revelando na mórbida posesia desta obra o que é vital e perecível.

 © Zhang Huan
Zhang HuanHomeland2001
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"Um fisiculturista desenvolverá força ao longo de décadas, tornando-se formidável dessa maneira. Eu, no entanto, me torno o fisiculturista olímpico da noite para o dia." 

Zhang Huan


 © Zhang Huan

Zhang HuanMy New York2002
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Vestindo um macacão musculoso feito inteiramente de carne crua o traje dava ao artista uma presença imponente e intimidadora, pois o fazia parecer muito maior.  


Este foi um trabalho de Zhang que tratou da dificuldade que ele enfrentou para se acostumar com a vida nos Estados Unidos, ao se mudar para a cidade de Nova York.

© Estate of Robert Rauschenberg 


Robert RauschenbergMonograma19551-959Vários materiais106,7 x 135,2 x 163,8 cmMuseum of Modern Art, Stockholm, Sweden
© Estate of Robert Rauschenberg 

Combine: óleo, papel, tecido, reproduções impressas, metal, madeira, salto de sapato de borracha e bola de tênis em duas telas unidas com óleo sobre cabra angorá taxidermizada com placa de latão e pneu de borracha sobre plataforma de madeira montada sobre quatro rodízios.

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Rauschenberg,  entre 1954 e 1964 criou uma série de trabalhos que chamou de "Combines" em que fundiu aspectos da pintura e escultura com a intenção de tornar uma categoria artística inteiramente nova.

A pintura de Rembrandt, com a carcaça de um boi esquartejado, inspirou Chaïm Soutine, que normalmente, usava referências para reencenar seus trabalhos então ele usa um pedaço de carne real para citar Rembrandt na sua pintura — deliberadamente, ao seu modo expressionista.


Soutine, por sua vez, foi posteriormente,  muito influente na obra de Francis Bacon  Este seu admirador obcecado, que soube muito bem dar o toque da sua linguagem própria, com seu estilo repleto de referências e citações.


Damien Hirst, altamente provocativo, mas reverente aos precedentes históricos, dos antigos mestres, usa a espetacularização "pop" da morte, para uma reflexão direta sobre nossa condição e questões contemporâneas.

© 2014 RMN-Grand Palais (musée du Louvre)  Tony Querrec

Rembrandt van RijnCarne Descascada1655óleo sobre madeira0,94m x 1,22 mLouvre
Chaim Soutine Carcaça de Boi, 1925 Óleo sobre tela 116,21 x 80,65 cm Minneapolis Institute of Arts
No Copyright - United States . Minneapolis Institute of Art (Mia) 

Chaim SoutineCarcaça de Boi1925Óleo sobre tela116,21 x 80,65 cmMinneapolis Institute of Arts
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Francis BaconFigura com carne1954Óleo sobre tela129,9 × 121,9 cmThe Art Institute of Chicago


Damien HirstIn nomine patris(the Name of the Father) 2004-2005vidro, alumínio, ovelha, solução de formaldeído 287 x 206 x 63 cm
O artista Alexandre Mury, autor da relitura de Francis Bacon, posa ao lado de sua obra no MAM-RJ
Alexandre Mury, artista e obra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeirom em, 2013, na ocasião da mostra Coletiva e lançamento do livro da  Coleção Gilberto Chateaubriand - Volume 3 | Anos 90/00 a novíssimos.
Peter Beard Photograph of Francis Bacon on his roof at 80 Narrow Street, London, 1972
Richard HamiltonPortrait of the Artist by Francis Bacon1970-1971Colótipo e serigrafia em papel82.3 × 69.6 cmColeção particular
Alexandre Mury em noite de autógrafos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Coleção Gilberto Chateaubriand

Volume 3 | Anos 90/00 a novíssimos


Autor: Luiz Camillo Osorio

Editora: ‎ Barléu Edições; 1ª edição (1 janeiro 2013)

Idioma: ‎ Português

Capa dura: ‎ 288 páginas

ISBN-10: ‎ 8589365409

ISBN-13: ‎ 978-8589365406

Dimensões: ‎ 26 x 2.5 x 27 cm

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O artista Alexandre Mury e colecionador de arte Gilberto Chateaubriand

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