Cristo Redentor | 2010

Detalhes / OBRA DE ARTE


Título: Cristo Redentor

Criador: Alexandre Mury

Data de criação: 2010

Tipo: fotografia

Meio: C-print (impressão cromogênica)


Período da Arte: Contemporâneo

Movimento/Estilo: Arte Conceitual, Arte Performática

Assunto: autorretrato, releitura, monumento, estátua, Cristo Redentor, estátua viva, 

Obras Relacionadas: Cristo Redentor, 1920, Paul Landowski e Carlos Oswald

Artistas Relacionados: Paul Landowski e Carlos Oswald



  Palavras-chave

#releitura #tableauvivant #arteconceitual #arteperformatica #artecontemporanea #artebrasileira


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Procedência: Alexandre Mury Coleção Particular / Acervo Pessoal  de Obras de Arte
Direitos: © Alexandre Mury
Título da obra: Cristo RedentorCriador: Alexandre MuryData de criação: 2010Fotografia / Autorretrato performático© Alexandre Mury

Ao substituir o pedestal grandioso do Cristo Redentor por um humilde banquinho de plástico, Mury aproxima o monumento da realidade cotidiana das classes populares brasileiras, mas também da humildade de Jesus de Nazaré. Essa escolha subverte a representação tradicional do Cristo como símbolo de fé e redenção, convidando o público a questionar as relações entre arte, religião, poder e desigualdade social.


Mury se apropria da figura do Cristo Redentor, mas o coloca em um contexto inusitado e provocador, abrindo espaço para novas interpretações. Longe de ser uma crítica à religião ou à cultura brasileira, "Cristo Redentor" é uma obra multifacetada que convida o público a uma reflexão crítica sobre a identidade brasileira, o símbolo carioca e a cultura universal. No contexto narrativo bíblico, a figura humanizada imperiosa e gloriosa do Cristo Redentor, em outro momento, é o humilde Jesus de Nazaré.


Ao usar o banquinho de plástico, Mury incorpora o Cristo à cultura popular urbana e suburbana, reconhecida por sua informalidade e improvisação. Mas também pode estar remetendo às dificuldades e precariadade dos anônimos artistas de rua que se apresentam como estátuas vivas em seus banquinhos ou caixotes em muitas cidades pelo mundo. Mas a obra também dialoga com a história da arte, fazendo referência à famosa performance "The Singing Sculpture" de Gilbert and George. Mury convida o público a refletir sobre a natureza da representação artística. A obra transcende os limites da fotografia, incorporando elementos da performance, da escultura e da apropriação de imagens. 


Essa apropriação pode ser vista como questionadora da mercantilização da imagem do monumento e a sua utilização como símbolo de poder e status. A imagem amplamente difundida daquele que é considerado como o rei dos reis, o Jesus Cristo ressuscitado, redimindo os pecados da humanidade, é recontextualizada em um objeto prosaico, convidando o público a refletir sobre as complexidades da identidade, carioca e brasileira em um contexto globalizado. 

Cristo Redentor


Criadores:

Paul Landowski e Carlos Oswald

Estátua: 

Estilo Art Deco

Altura:

30 metros e 38 metros com o pedestal m

Material:

Concreto armado revestido por pedra-sabão

Período de construção:

1920

Inauguração:

12 de outubro de 1931 (91 anos)

Patrimônio:

Registrado pelo Inventário de Monumentos RJ 

Coordenadas: 

22° 57′ 07″ S, 43° 12′ 38″

Os artistas Gilbert Proesch (esquerda) e George Passmore, que trabalham juntos como Gilbert e George apresentam a performace 'Underneath The Arches/The Singing Sculpture' na Nigel Greenwood Gallery em 60 Glebe Place, Chelsea, Londres em 1970.
Foto de Chris Morphet/Redferns


Gilbert and GeorgeThe Singing Sculpture1970PerformanceFotografia: Chris Morphet/Redferns

Estátua viva ou estátua humana é um tipo de espetáculo comum em locais públicos realizado por artistas de rua, imitando uma estátua com movimentos estáticos.

Os artistas britânicos, Gilbert & George entre 1969 e 1991, realizaram a perfomance artística chamada "Singing Sculpture" na qual eles aparecem para cantar e dançar uma canção dos anos 1930, Underneath the Arches. É  uma canção sobre dois vagabundos que falam sobre os prazeres de dormir na rua.

A dupla de artistas tornaram-se não apenas criadores, mas a própria arte. As Esculturas Cantantes — esculturas vivas com os rostos e mãos pintados com pó metalizado multicolorido executam uma série de movimentos mecânicos que evocam o ritmo sincopado dos autômatos.

Gilbert Proesch (n.1943) e George Passmore (n.1942) recusam a dissociar arte de suas vidas cotidianas, insistindo que tudo o que fazem é arte. Há décadas eles moram juntos, usam ternos de tweed idênticos e fazem arte juntos como uma dupla colaborativa — se consideram uma identidade artística.

© 2008 GrandPalaisRmn (musée du Louvre) / Thierry Ollivier

Charles MeynierEstátua de Mercúrio 1794-1795Óleo sobre tela300 x 153 cmMusée de la Révolution française

Charles Meynier, ao desenvolver sua série de pinturas dedicadas à representação de estátuas clássicas não se configura como um exercício formal simplista, mas como uma possível investigação sobre a natureza da representação artística. Ao pintar estátuas, o artista estabelece um jogo de duplicidade representacional: a pintura que representa uma escultura que, por sua vez, representa uma figura mitológica. Esta estratégia cria camadas sobrepostas de significação que questionam a própria natureza da mimese artística.


Ao traduzir a tridimensionalidade da escultura para a bidimensionalidade da pintura, Meynier explora as tensões entre materialidade e ilusão. O artista consegue, através de sua técnica pictórica, não apenas reproduzir a aparência das estátuas, mas também evocar suas qualidades táteis e espaciais. Esta transposição entre diferentes materialidades artísticas evidencia uma reflexão sobre as possibilidades e limites de cada meio expressivo. Esta série demonstra como, mesmo dentro dos parâmetros da arte neoclássica, era possível desenvolver reflexões profundamente inovadoras sobre a natureza da representação artística.

Nem o fotógrafo nem o editor são identificados no cartão postal

Olga Desmond nua com drapeado e pedestal.Sem data, provavelmente por volta de 1908, quando Desmond apareceu em São Petersburgo.Antigo cartão postal russo, 14 x 9cm

Olga Desmond, prussiana-alemã (1890–1964), foi uma dançarina, professora e teórica da dança que, em 1906, se junta a um grupo de artistas e aparece como Vênus, posando nua ou apenas com pintura corporal como se fosse escultura de mármore  —   estátua viva. 

Olga Desmond posou à maneira de antigas obras de arte clássicas  — defendia a comparação com o ideal grego de beleza. Seus espetáculos foram proibidas em mais de uma ocasião a partir de 1908, porque Desmond e os atores geralmente posavam nus ou usando apenas pintura corporal.

Man Ray, "nude series", 1930
O SANGUE DE UM POETALE SANG D'UN POÈTEDirigido por Jean Cocteau1932

Uma referência ao cinema surrealista exibe imagens marcantes de uma mulher que se transforma em estátua.

Jean Cocteau foi um dos artistas mais completo do século XX. Expressou-se em todas as mídias: poesia, teatro, música, romance, fotografia, escultura, desenho, pintura e cinema. 


The DreamersDirigido por Bernardo Bertolucci2003Eva Green como Vênus de Milo
Vênus de MiloAutor: Atribuída a Alexandre de AntioquiaData: Possivelmente século II a.C.Escultura de Mármore, 202cmMuseu do Louvre, Paris, França

Com os braços cobertos por longas luvas pretas que se misturam à escuridão de um cômodo escuro da casa, quando adentra o recinto iluminado, Isabelle,  personagem interpretada por Eva Green, ecoa a Vênus de Milo. 

“Sempre quis fazer amor com a Vênus de Milo”, sussurra Matthew assim que percebe a presença de Isabelle. A garota se aproxima e Matthew começa a fazer sexo oral nela. “Eu não posso te impedir,” Isabelle diz. "Eu não tenho braços."

Foto: FXP Photography


Bruce McLean"Pose Piece for Three Plinths"1971Fotografias em preto e branco, montadas em cartãoCada fotografia 10 × 15,5 cmCollection Postcard Bruce McLeanThe Roberts Institute of Art

A performance "Pose Piece for Three Plinths" de Bruce McLean é frequentemente descrita como um comentário irônico e bem-humorado sobre a "pomposa monumentalidade" das grandes esculturas reclinadas de Henry Moore baseadas em pedestais.


Ao usar seu próprio corpo como material, McLean subverte a ideia tradicional de escultura como um objeto fixo e inerte. A performance de McLean desafia a grandiosidade das esculturas de Moore ao apresentar o corpo humano nu e vulnerável em poses banais sobre pedestais.


A performance de McLean só pode ser compreendida em sua totalidade se o espectador estiver familiarizado com as obras de Henry Moore e com os conceitos do conceitualismo. O corpo do artista se torna um meio para expressar essa ideia, e não apenas um objeto para ser admirado por sua beleza formal. Isso serve para questionar a seriedade do mundo da arte e para abrir espaço para interpretações mais pessoais e subjetivas da arte.

© Museum MMK für Moderne Kunst. Photo: Axel Schneider, Frankfurt am Main

Félix González-Torres"Untitled" (Go-Go Dancing Platform)1991Plataforma construída como um palco elevado e quadrado, iluminada por uma fileira de lâmpadas em seu perímetro. A plataforma permanece vazia a maior parte do tempo. Em momentos específicos, um dançarino vestindo shorts prateados e fones de ouvido sobe na plataforma e dança por 5 minutos. Esta alternância entre presença e ausência torna-se parte integral da escultura

A base material da obra consiste em uma plataforma quadrada elevada, pintada com tinta metalizada e circundada por lâmpadas. Esta estrutura geométrica dialoga diretamente com a tradição minimalista, estabelecendo uma presença física inequívoca no espaço expositivo. González-Torres consegue expandir os limites da escultura sem abandonar seus fundamentos essenciais. A obra mantém preocupações tradicionais com forma, volume e materialidade, enquanto incorpora elementos temporais e performativos. Esta síntese cria um novo paradigma para a compreensão do que pode constituir uma escultura.


Em intervalos específicos, um dançarino vestindo shorts prateados e fones de ouvido ocupa a plataforma por cinco minutos. Durante estes momentos, o corpo do performer se integra à composição escultórica, criando uma fusão temporária entre o orgânico e o geométrico. Esta incorporação do elemento humano expande radicalmente as possibilidades do meio escultórico.


Criada durante a crise da AIDS, a obra carrega significados políticos e sociais profundos. A alternância entre presença e ausência pode ser interpretada como uma metáfora para perda e memória. A plataforma vazia torna-se um monumento à ausência, enquanto os momentos de performance celebram a vitalidade e a resistência.

Vanessa Beecroft Vb62.028.nt Santa Maria dello Spasimo, Palermo, Italy, 2008

Beecroft se inspira, frequentemente, em toda a história da arte, da antiguidade à modernidade. Os quadros vivos em grande escala de Beecroft, elegantemente fotografados para a posteridade, exploram a imagem corporal, a feminilidade e a relação dependente do contexto entre o espectador e o observado. As peças performáticas nas quais a imobilidade desempenha um papel predominante, o todo é concebido para confrontar a realidade com a sua representação, tornando-se sujeitos e objetos, estáticos poderosos. 


Beecroft dispôs um grupo de nus femininos, mulheres reais e moldes de gesso. As modelos nuas relembravam as noções renascentistas, os moldes de gesso aludem à tradição das esculturas funerárias. Os corpos das modelos vivas estavam inteiramente cobertos de pintura corporal branca, os cabelos presos e pintados também; misturaram-se entre as esculturas de gesso. 


As apresentações de Vanessa Beecroft duram várias horas, durante as quais as modelos não são obrigadas a ficar completamente imóveis, mas devem evitar todo contato visual e permanecer distantes. Elas nunca devem falar e devem manter as posições designadas o maior tempo possível, após o que podem trocar de pose, nem muito rápido, nem muito lento, seus movimentos são controlados e não devem ser sincronizados. Nestas performances predominam a quietude e o silêncio, criando o efeito de uma pintura.

Chris Burden, "Trans-Fixed", performance realizada em 1974.

A performance "Trans-Fixed" de Chris Burden, realizada em 1974, permanece como uma das obras mais provocativas e desafiadoras na história da arte performática. Nesta peça, Burden foi crucificado em um Volkswagen Fusca, com pregos atravessando as palmas de suas mãos. O motor do carro foi brevemente acelerado antes de retornar à marcha lenta, criando um tableau poderoso e perturbador que continua provocando discussões décadas depois.


No contexto histórico, os símbolos e instituições tradicionais da sociedade americana estavam sendo questionados, incluindo a iconografia religiosa e a cultura de consumo — ambos diretamente referenciados em "Trans-Fixed". O artista como mártir: Burden assume literalmente o sofrimento físico em nome da arte, sugerindo paralelos entre devoção religiosa e compromisso artístico.


O status do Fusca como "carro do povo" (seu propósito original na Alemanha nazista) cria uma ressonância histórica complexa, justapondo o sofrimento pessoal à produção em massa. A natureza mecânica e industrial do automóvel contrasta fortemente com a vulnerabilidade da carne humana, criando uma dialética poderosa entre tecnologia e humanidade.


"Trans-Fixed" exemplifica, em última análise, o paradoxo no cerne de grande parte da arte performática: existe principalmente como documentação (fotografias e relatos escritos) de um evento efêmero, mas seu impacto depende precisamente de sua reivindicação à experiência autêntica e vivida além da representação. As feridas dos pregos eram reais, mas seu significado existe no reino do simbolismo e da interpretação — uma tensão que continua tornando este trabalho cativante e perturbador quase cinco décadas após sua criação.

A Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira é uma obra de referência virtual que reúne informações sobre arte e cultura brasileira. Os verbetes presentes na Enciclopédia são disponibilizados gratuitamente ao público, de forma abrangente e dinâmica. O conteúdo das bases de dados está em contínua ampliação e atualização. 

Marcel DuchampRoue de bicyclette (Roda de bicicleta),1951 (terceira versão segundo o original perdido de 1913). Roda de metal, 64 cm de diâmetro, montada em um banco de madeira pintada, 60 cm de altura, altura total 128 cmThe Museum of Modern Art, Nova York. 

Assim como um banquinho é um pedestal para a obra e é, ele mesmo, em si, parte da obra, a inusitada obra de arte resultante de uma combinação de objetos encontrados chama mais atenção para a roda que faz desta escultura uma obra cinética. A obra funde dois objetos úteis diferentes, mas, ao fazê-lo, despoja ambos de sua função original. Não podemos mais andar de bicicleta ou sentar no banquinho, então os objetos são totalmente reinventados.

Duchamp desafia a noção de habilidade manual e originalidade na produção artística, enfatizando a importância do conceito por trás da obra. Duchamp sugeriu que, para criar um readymade, era preciso ter um “gosto indiferente”, no qual se pudesse deixar de lado os critérios normais de beleza e tentar interagir com o objeto de uma forma radicalmente nova. Ao divorciar a arte do gosto pessoal ou subjetivo, Duchamp abriu caminho para a Arte Conceitual, na qual as ideias tinham precedência sobre a estética final da peça.

Joseph Kosuth, "One and Three Chairs", 1965

"Uma e Três Cadeiras" de Kosuth, de 1965, faz parte do movimento da arte conceitual. Nesta obra, Kosuth apresenta uma cadeira real, uma fotografia da mesma cadeira e uma definição de "cadeira" em texto. Ele está interessado em explorar a natureza da representação e da linguagem, questionando se a representação é capaz de capturar a essência do objeto e se a linguagem pode realmente definir a realidade.

"Uma e Três Cadeiras" nega a distinção hierárquica entre um objeto e uma representação, assim como implica que uma obra de arte conceitual pode ser objeto ou representação em suas diversas formas. Este trabalho remonta e amplia o tipo de investigação sobre a suposta prioridade do objeto sobre a representação que havia sido proposta anteriormente pelo surrealista René Magritte em sua obra "Treachery of Images" (1928-9), com a imagem de um cachimbo sobre a inscrição "Ceci n'est pas un pipe" (Isto não é um cachimbo).

Diretor criativo: Giovanni BiancoFotografia: Marcos Florentino e Kelvin Yule"Girl From Rio" Anitta2021

O ensaio fotográfico feito para promover o clipe da música "Girl From Rio", da cantora brasileira, Anitta, teve como proposta criar uma identificação, com peculiaridades cariocas, ao destacar um transporte coletivo, bastante comum no Rio de Janeiro. Assim como a cadeira empilhável feita de monobloco de plástico, com sua simplicidade e ubiquidade, se tornou um símbolo intrigante da interseção entre design, economia, cultura e identidade social. 


A música em inglês é uma releitura da Garota de Ipanema de Vinícius de Moraes, mas com a proposta de revelar a mulher carioca e a realidade suburbana do Rio de Janeiro contemporâneo. A cantora em pé, alegoricamente, subverte a entronização das realezas, em cima da cadeira de plástico e na frente do ônibus, enaltecida como nos destaques do carnaval. Tal como uma divindade estática, ela dialoga explicitamente com a estética da representação do Cristo Redentor, abordando a iconografia da cultura popular do Rio de Janeiro, presente no trabalho de releitura de Alexandre Mury.

Obra de arte de Alexandre Mury, emoldurada e embalada na galeria de arte, pronta para ser enviada para o colecionador de arte.